quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sarcasmo imediato


Abriu os olhos, olhou o relógio como de costume. Levantou-se, caminhou até o banheiro e lavou o rosto, como de costume. Sentou-se na cadeira ao lado da cama e ficou durante um tempo esperando o resto do corpo acordar, como de costume.

Aquele dia não era como os outros. Tinha decidido que não seria. Ainda não conseguia perceber a diferença.
Observou seus livros, sua anotações, suas roupas, as fotos espalhadas pelo quarto, passou a mão por toda a cama, sentiu o cheiro dos lençóis. Realmente, se amava muito. Tinha conseguido construir uma vida, uma casa, uma carreira. Conseguiu ser excelente em quase tudo que fez. Tinha um orgulho imenso de ser quem era, mas sentia-se sempre fora de si, menos agora... nesse despertar.
Calçou os sapatos, vestiu o casaco, saiu no jardim.
O vento tocou seu pescoço, levantou levemente os cabelos e fez com que ela fechasse os olhos por alguns segundos. Abriu as mãos e deixou que os primeiros pingos de chuva caíssem sob elas, levantou a cabeça e não saiu dali. Lembrou de quantas vezes fugiu da chuva, quantas vezes amou na chuva, quantas vezes olhou a chuva ou simplesmente a ignorou.
Abriu o portão e pisou na rua.
Caminhou afundando os pés nas poças d'agua e sentindo o 'saplicar' da terra nas pernas. Chegou até uma praça, sentou-se em um banco cheio de folhas caídas e ferrugem. Olhou em volta e respirou profundamente. Conseguia sentir o mesmo cheiro de anos atrás, quando esteve alí, naquela praça, quando aquele banco ainda era branco, quando a tinta ainda não havia descascado, assim como a sua própria cor. Ah, como queria ter só mais um pouco aqueles dias, não os queria pra sempre, mas os queria sempre que desse vontade.
Voltou a caminhar, passando a mão nas paredes, tocando as plantas... sentia saudade de tudo, da sua vida ativa. Até do trânsito maldito, da fila enorme, do ônibus que demorava. Preferiu não pensar nos amigos e nos amores, a vida mecânica do dia-a-dia parecia-lhe fazer mais falta do que sentimentos incômodos.
Caminhou de volta pra casa, já tinha 'viajado' até onde queria.

Lembrou-se da torta que havia feito no dia anterior, resolveu comer um pedaço. Pela primeira vez tinha acertado nas medidas, ficou realmente muito boa. Ah, aquela toalha de mesa... não combinava com isso. Aquela toalha de mesa não combinava com nada, aliás, aquela toalha de mesa era a causa de todos os dias que ela acordou de mau humor. Ganhara de presente de casamento, foi só o que sobrou dele. Lembrou-se do primeiro almoço em família, onde o fogão explodiu e seu quadro do Dalí foi cremado. Daquele bendito dia, só sobrou esta toalha de mesa.
- Cinco meses de 'desquitada' e ainda estou na merda. - pensou em voz alta.
O telefone toca:
- Sim.
- Oi, é o Fábio.
- Pode dizer...
- O assunto é um pouco chato, mas estou precisando da casa essa semana, no máximo. Combinamos que você ficaria no apartamento e eu na casa, mas já fazem 3 meses e ...
- Okay - desliga o telefone.

Não se importava com a casa, não se importava com ele, não se importava com nada. Só conseguia sentir ódio.
Pegou a toalha de mesa, jogou álcool e riscou o fósforo.
Sentou na cadeira e observou. O fogo subia na cortina, que ela odiava. Se alastrava pelo tapete, que ela odiava. Queimava o sofá, que ela odiava.
Seu ultimo ato foi atirar a torta no fogo, depois saiu. Não queria morrer, pelo menos não queimada.
Discou o número, ele atende:
- A casa é sua.

Acendeu um cigarro e esperou alguém ligar para os bombeiros.

2 comentários:

Ellen Fernandes disse...

Ual ... gostei da forma com que coloca as palavras.. realmente muito bom!!

Um texto que simples que parece real

borboleta psicodélica disse...

Adorei, amor.